Giro e retomada do setor cultural


O setor cultural e de entretenimento está confiante com as últimas notícias da semana: os incentivos culturais Proac serão liberados nesse mês! 

Sem dúvida, é uma forma de produtores com projetos já aprovados na Secretaria Estadual de Cultura iniciarem a captação de recursos, e, ao mesmo tempo, retomarem contratações da equipe técnica, mesmo que a realização dos eventos ocorra mais para frente!


Ao meu ver, a iniciativa descrita no parágrafo acima, contribui para a distribuição de renda ao setor cultural, e, consequentemente, o giro e retomada do nosso universo! Começar a agir, sugerir e olhar para todo o sistema ao redor são algumas das mudanças efetivas para atender às necessidades desse mercado.

Por outro lado, um outro ponto importante de discussão é pensar  em soluções que ajudem as empresas com eventos já marcados no calendário da cidade e com vendas de ingressos em andamento. 

Cito aqui dois exemplos, onde atuo com a minha empresa: O “Farraial” (Público-alvo: 40.000 pessoas), festival de música sertaneja previsto para o dia 22 de agosto, no Anhembi, e o Nômade Festival (Público-alvo: 15.000 pessoas), evento agendado para outubro de 2020, no Memorial da América Latina. 


Assim como esses dois festivais, muitos outros eventos precisam de uma posição do Governo para que possa existir um planejamento das agências, produtores e empresários, pois lidamos com grandes artistas e com uma grande complexidade de produção. Afinal, é preciso oferecer sempre um bom produto para o público, de acordo com as necessidades de cada cliente. Geralmente, levamos seis meses para vender os ingressos e um ano nas demandas de produção.


Claro que ninguém tem essa informação ao certo, sobre quando tudo possa ser retomado, mas o fato do Governo declarar uma data (mesmo que isso seja lá para frente), ajuda muito a retomada da economia! Digo isso, pois já podemos lançar os eventos (para essas datas seguras) e iniciar a venda dos ingressos, e ainda nos beneficiarmos da Medida Provisória MP 944. Retomando as contratações de funcionários, fornecedores e outros itens especializados. Fazendo girar a economia e o universo cultural!


Sem um pronunciamento oficial sobre a retomada do setor, por parte do Governo, tanto a população fica com “receio” de comprar ingressos, como nós, empresários do ramo, evitamos contratações e gastos. Isso faz com que a “roda deixe de girar” e passe a estagnação dos setores cultural, entretenimento e  da economia! 


Ainda há pouco consenso em relação a qual a melhor abordagem para usar, quando o assunto é o envio das notícias. Em tempos de crise, informações desconectadas travam por completo o mercado cultural! 


Semana passada, o diretor do Instituto de Transformação da Saúde da Universidade da Pensilvânia, Zeke Emmanuel, concedeu entrevista ao The New York Times, onde disse que grandes shows e aglomerações não poderão ser realizadas antes do segundo semestre de 2021. Automaticamente, os produtores culturais entraram em desespero com a informação. Obviamente, um cenário de 18 meses sem trabalho e faturamento seria um colapso para esse setor.


Resumindo, uma notícia como a citada anteriormente automaticamente impacta a venda de shows já lançados para o final do ano. E ainda, patrocinadores em vias de contrato recuaram com medo de que os eventos não ocorram... Enfim, vira um efeito dominó e uma reação em cadeia.


É claro que todo esse clamor por eventos culturais acabe se refletindo em novos formatos, como é o caso das “lives”. Por mais que seja “inspiradora” essa novidade , sabemos que ela não representa nada, quando comparado com os empregos gerados com a realização de shows, casamentos e eventos. A cadeia toda continua desamparada!


Cabe ao Governo do Estado e a Secretaria de Cultura uma ação de solidariedade com o setor cultural. Datas mais definidas para a retomada das atividades no setor, palavras solidárias sobre a importância dos eventos culturais e apoio a volta das atrações, passam a ser sinônimo de estímulo à produtividade.


Há um fato importante dentro do atual contexto, vejo que no âmbito Federal, tivemos nova Instrução Normativa, o que flexibiliza as prestações de contas, bem como cronograma de atividades e captação mínima para inicio da execução dos projetos. 


A medida é importante para que os projetos não parem por completo, mas numa visão mais ampla, podemos ver que a maior parte das empresas apoiadoras travou os aportes trimestrais. 


Elas não conseguem aferir com precisão o possível lucro que terão no ano de 2020, com isso, esses aportes acontecerão somente no final do ano. Ou seja, a medida e nova Instrução Normativa “ajuda”, mas também “não ajuda”. 


O que vejo com bons olhos para o momento? Além de uma discussão sobre a retomada do setor e medidas a serem tomadas, tanto a Secretaria Estadual, quanto Municipal de Cultura, seguirem as mesmas medidas adotadas pelo Governo Federal.


Cabe ao Governo identificar os melhores ajustes, mas como sugestão, o Proac, poderia diminuir a captação mínima de 35% para 15% do valor global aprovado do projeto, por exemplo.


Quando falamos no âmbito Municipal, o ProMAC, vejo que temos ainda mais questões a serem discutidas. Trata-se de uma ótima Lei de incentivo à cultura, por outro lado, os recursos anuais ainda não foram liberados, o que não permite a captação para iniciar a pré-execução!


Além disso, produtores culturais enfrentam grandes dificuldades em realizar aprovações dos projetos no programa municipal! No primeiro encontro da CAP para aprovações  de projetos realizado duas ou três semanas atrás, apenas quatro foram aprovados! 


A maioria deles, no modelo “plano anual”, de grandes centros ou produtores culturais. Nessa mesma reunião, determinou-se teto de venda de ingressos de inteira no valor máximo de R$30, sendo a meia entrada R$15.


Todos os projetos analisados na ocasião, foram inseridos no sistema em 2019, portanto ao serem verificados em 2020,  e  diante das novas regras de teto para ingressos, a maioria foi diligenciado ou então negados! Reforço que não retrato apenas meu caso, ok? Falo pela maioria!


Concordo com o olhar da Secretaria de descentralização de recursos, como também fomento de coletivos e artistas amadores, mas para o momento atual, essa morosidade em liberação de recursos e ao mesmo tempo dificuldade de aprovações aos projetos culturais, além da mudança de indicadores como o do valor permitido no ingresso (não prevista anteriormente nesse formato em lei), causa grande instabilidade no setor, como também não é bem vindo agora. Temos outras prioridades, o de sobrevivência!


Com medidas rápidas, nesses importantes meios de fomento cultural e da economia, podemos minimizar os estragos no nosso setor.


Luiz Restiffe, sócio da @agenciainhaus

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